Dr. Plinio: Cultura e Civilização Cristãs
I - O Marechal Foch em seu estado-maior: sabedoria e tradição postas no trabalho
Continuação...
Estabilidade dentro das mudanças impostas pela guerra
Nessas residências sucessivas, a existência e o trabalho se organizavam sobre as mesmas bases: é desta vida e deste trabalho que quero fixar a lembrança.
Portanto, o estado-maior mudou diversas vezes de lugar, porque as operações militares o exigiam, mas manteve sempre o mesmo estilo de vida.
Salvo nos casos de um castelo isolado, os escritórios do estado-maior são colocados fora da casa habitada pelo General Foch.
A residência dele tinha de ser mais calma do que o escritório. Compreende-se, pois quem se entrega a um árduo trabalho, deseja sossego.
Quando os acontecimentos não se decidem de outra maneira, eis como era distribuído seu dia. Em princípio, o trabalho sedentário ocupa sua manhã. Seu escritório está instalado no mesmo local que o estado-maior; o meu, sempre contíguo ao seu. O General chega exatamente às oito horas, em todas as circunstâncias e estações do ano.
Vencendo ou perdendo batalhas, ele sempre se apresenta à mesma hora. Revela o homem que possui distância psíquica (1), e não aquele que, quando as notícias são favoráveis, chega cedo no local de trabalho; se são ruins, por desânimo ou medo, deixa-se ficar mais tempo sob as cobertas e se atrasa.
Grande lucidez de espírito
Eu lhe presto contas, incontinenti, dos acontecimentos da noite. Ele ouve esses relatórios com uma atenção igual à precisão que exige, pois nenhuma manifestação da atividade inimiga lhe parece própria a ser subestimada.
Vê-se como o espírito de Foch era extremamente lúcido. De início, deseja saber como a situação da guerra evoluiu. E quer dados exatos, não informações vagas. Esclareçam: o inimigo está avançando quantos quilômetros, em qual direção e com que forças? Que obstáculos estas encontraram?
E ele ouve tudo com inteira atenção, pois nenhum pormenor lhe é inútil. Isto significa ter ordem no pensamento.
Depois o trabalho começa. Ele apresenta a maior variedade, não só em razão da diversidade dos temas tratados, mas também quanto ao modo pelo qual se engaja. Se um acontecimento novo reclama uma decisão a tomar, ou uma instrução a dar, a questão é regulamentada imediatamente, e pode pedir apenas um momento ou várias horas de trabalho.
Quer dizer, numa vida de guerra, tudo é imprevisto. As medidas devem ser tomadas conforme as circunstâncias, sem o que se costuma chamar de "quadratice" (2).
Posso, igualmente, submeter ao General um documento cuja "mise-au-point" estava em curso e do qual ele ainda não estabeleceu o texto definitivo. Freqüentemente, o assunto é menos imediato e se relaciona com o estudo de uma dessas questões fundamentais, tais como a preparação de operações ulteriores, o armamento ou a organização das forças combatentes, que somente podem ser aprofundadas sob a condição de se voltar atrás várias vezes a elas.
Weygand faz distinção entre dois tipos de assuntos. Alguns exigem solução imediata; costumamos chamá-los assuntos de gaveta, quer dizer, providências.
Outros são os temas de envergadura, que exigem pensamento profundo, longa maturação, porque se referem à alta estratégia da guerra. Quanto a estes, diz ele, não podem ser resolvidos numa conversa só. Fazem-se necessárias diversas interlocuções, porque de uma conversa para outra o espírito amadurece, e quando retorna ao tema, a visualização dele está enriquecida.
(Extraído de Revista Dr. Plinio n° 103)
1) Face a importantes notícias ou acontecimentos – bons ou maus – deve-se manter sempre o equilíbrio de alma, ou seja, a serenidade e a paz interior. Conforme dizia Dr. Plinio, é necessário conservar "distância psíquica" em relação a eles, e não se deixar abalar.
2) Defeito de espírito de quem não possui bom senso e maleabilidade, e cujo pensamento geralmente é coarctado por regras intocáveis.