Dr. Plinio: Cultura e Civilização Cristãs
Nos mares do ideal
Continuação...
Também nós partimos para uma grande "navegação", visando não a conquista de terras, mas a do Reino de Maria, a conquista das almas e dos corações para Nossa Senhora. Cada um nasceu numa pequena "Barcelona" individual, onde julgávamos haver todos os aconchegos, todas as delícias, tanto mais deleitáveis quanto mais imaginárias. Mas, como sói acontecer, o homem se apega mais às ilusões fabricadas por ele mesmo do que às coisas reais.
E quantos de nós foram colhidos nas respectivas "Barcelonas" por um anjo que, com o rebrilhar dourado e prateado de suas asas, nos indicou um rumo o qual decidimos seguir, tomados de encantamento? Se alguém nos dissesse nesse instante: "Fique aqui, porque em Barcelona há um fio de linha especial para se costurar com ele..." Nós responderíamos com um riso sonoro: "Não quero seu fio de linha! Desejo, sim, caminhar em direção àquela luz!"
Saudades da mediocridade
Porém, assim como há no homem reservas boas, provindas de sua própria natureza, que o levam a atender o convite das asas do anjo, existem também algumas ruins, as quais o induzem a permanecer na inércia. Movido por essas últimas, ele, embora não proteste, pensa: "Vou avançar em direção ao bem, mais tarde..."
E asas de anjo são caprichosas. Passam iluminadas pelo sol, para que o homem as contemple e as siga. Se as deixa escapar, quando anoitece não as encontra mais. Batalha para alcançá-las, tem a impressão de que se esqueceram dele. Nestas horas de cansaço, de abandono, em que tudo lhe parece difícil ou trivial, emergem as saudades de "Barcelona", sussurrando-lhe: "Lembra-se da sua Barceloninha? De sua caminha? De tal petisco, de tal elogio... recorda-se do fio de linha?!"
Se não resistir, é levado a pensar: "Ó asas de anjo, não me aparecei! Não quero os grandes panoramas, mas o fio de linha!". E o homem acaba desertando da grandiosa caminhada que havia encetado. Ou pratica uma deserção velada, à maneira dos operários que fazem uma espécie de greve – legítima em certas ocasiões – freqüente nos dias de hoje: em vez de pararem inteiramente o serviço, adotam a chamada "operação tartaruga", trabalhando de maneira incompleta, vagarosa, o que redunda na diminuição da produção.
Às vezes, as saudades do fio de linha de "Barcelona" não leva a pessoa a abandonar a vocação, ela não deserta do caminho, mas faz a "operação tartaruga". Anda devagar e com preguiça, seus serviços são mal feitos, ama e espera pouco. Resultado: cada vez mais envereda nas trilhas da decadência.
Em determinando momento, dá-se conta de que a esquadra está longe, desaparecendo na zona do mar banhada pelas refulgências da lua. E a pessoa ficou para trás, onde a bruma impera, os escolhos perigosos se apresentam. E, apanhada pelas saudades de "Barcelona", diz para consigo: "É preciso andar bem devagar, do contrário, como me arranjarei?"
Continua...