Dr. Plinio: Fidelidade à Santa Igreja
"Bem-aventurados aqueles cujos pecados são apagados"
O Salmo 31 se refere não apenas à situação do pecador que constata a sua falta e pede perdão a Deus, mas também à cólera divina que ele sente cair sobre si. E o salmista descreve tudo quanto lhe aconteceu de mau: fora dele, a perseguição dos inimigos; no seu interior, a decrepitude de sua pessoa, afetando até seus ossos. Pois ele passou as noites chorando e lavando o próprio leito com suas lágrimas, porque não conseguia conciliar o sono. Para ele, o dia se confundia com a noite, ambos são trevas.
Uma "estrela d'alva" na noite da contrição
Os Salmos penitenciais falam a respeito do pecado, da dor de quem o praticou e do pedido de misericórdia dirigido a Deus. Porém, sua nota dominante não é o acolhimento celeste dispensado a essa solicitação.
Contudo, neste texto a idéia que desponta de maneira muito clara é a da clemência divina, obtida depois de tão impetrada. O Altíssimo começa a perdoar e passa a conceder graças ao pecador. Vemos, então, uma forma de reconciliação estável entre Deus e o faltoso arrependido.
É compreensível essa seqüência, pois o perdão de Deus é uma graça de valor infinito. Alcançamos essa dádiva quando a rogamos retamente, com a dor necessária, confiando a Maria nossos sofrimentos, implorando a Ela que transmita nossa súplica a Jesus, à Santíssima Trindade, dando-nos a esperança de nos advir algum benefício.
Há assim uma espécie de estrela d'alva que aparece dentro dessa noite da contrição, precursora do momento em que o sol do perdão nascerá para o penitente. Ela brilha e ilumina, de vez em quando, aquele período escuro de dor, de arrependimento e atrição ao qual o Salmo se refere.
Afinal, Deus, que ama o pecador e não deseja que ele morra, mas se converta e viva, manifesta-lhe gradualmente sua misericórdia. A meu ver, esta como que aurora divina é um dos belos aspectos desse Salmo, que merece ser analisado versículo por versículo, a fim de saborearmos o sentido que encerram.
Feliz o que odiou o seu pecado e abraçou a retidão
Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades foram perdoadas, e cujos pecados são apagados.
O salmista começa a falar daqueles que pecaram e foram perdoados. Trata-se dos arrependidos, chamados de "bem-aventurados" porque odiaram sua falta, abandonaram o mau caminho e entraram na via da retidão.
Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não argüiu de pecado, e cujo espírito é isento de fraude.
Refere-se, agora, não ao pecador contrito, mas ao inocente. Sem dúvida, nunca ter ofendido a Deus representa uma bem-aventurança maior do que haver pecado e obtido o perdão.
Continua...