Dr. Plinio: Fidelidade à Santa Igreja


O Stabat Mater, verdadeira jóia de fé e coerência

Continuação...

Afinal, para conseguir me livrar de tanta Via Sacra, excogitava qualquer emoção ligeiramente "arrependitiva" e a governanta declarava: "Vai logo para o confessionário, senão essa contrição desaparece".

E eu, compenetrado de minha tremenda vilania – pois era um homem que não se arrependia de nada, tendo de se confessar rapidamente antes que se esvaísse aquele mínimo sentimento de culpa –, pensava: "É verdade, deixa eu pegar minha 'contriçãozinha' no pulo; do contrário, não sei o que será de mim."

Claro está, essa governanta possuía uma idéia errada do que era o sentimento de contrição. Na realidade, não se trata de simples choramingar nem de uma dor sensível, mas é tomar profundamente a sério os dados fornecidos pela Fé, cogitando, por exemplo, no seguinte: até a última gota do Sangue de Nosso Senhor teve de ser derramada, quando a lança perfurou o próprio símbolo do amor, que é o Sagrado Coração. Ele sofreu tudo por mim! Então, a que conclusões devo chegar?

Essa seriedade da alma é a compunção. Muitos santos a tiveram acompanhada de pranto, que é um grande dom: o das lágrimas. Mas este, embora muito conveniente, não é necessário para o autêntico arrependimento.

Portanto, em virtude dos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo, devemos pedir a graça da verdadeira compunção. E nesse intuito – sem procurar um "calorífero emocional" – será mesmo louvável que recitemos piedosamente uma Via Sacra.

Tesouros de lógica e virtude

Compreendemos, então, como o Stabat Mater é bem constituído.

Ele coloca diante nós o mais comovente dos quadros, e nos leva a fazer pedidos de que esta situação trágica de fato nos comova, reconhecendo a fundo a maldade e a dureza humanas, insensíveis a tanta dor.

Eia Mãe fonte de amores, fazei que essas fortes dores eu sinta e convosco chore.

Quer dizer, que eu me solidarize convosco. Concedei à minha alma uma participação na vossa dor.

Fazei que a alma se me inflame, para que a Cristo Deus só ame e só busque o seu agrado.

Depois da solidariedade, implora-se algo mais alto: uma união tal que eu só ame a Ele, Cristo Jesus.

Santa Mãe, isso vos peço, fique o peito bem impresso das chagas do Crucificado.

Note-se como está bem graduado e pensado: solidariedade, amor exclusivo, participação no sofrimento d'Ele aqui na Terra. Quero ter impressas em mim as chagas de Jesus.

E por fim:

Fazei-me, enquanto viver, com meu Jesus condoer, convosco chorar deveras.

Pede-se a graça da perseverança, para que durante minha existência inteira essa disposição de alma permaneça viva. Amém.

Percebe-se, dessa forma, a maravilha de Fé, lógica, coerência e humildade contida nessa oração. E esta outra característica, não menos bela: posto diante de Cristo crucificado, o fiel não se dirige diretamente ao Redentor, mas a Nossa Senhora, sabendo ser Esta o caminho mais certo e seguro de chegar a Ele. Então, aceitando a mediação universal de Maria, roga-Lhe sua intercessão para que suas preces sejam ouvidas pelo Senhor Jesus.

Na verdade, o Stabat Mater é uma poesia tão singela, tão simples, que requer profunda análise para se compreender e admirar os tesouros de teologia e virtudes nela encerrados.

« ... 1 2 3 4 ... »