Dr. Plinio: Fidelidade à Santa Igreja


"Tornei-me como o pássaro solitário no telhado"

Continuação...

O Salmista, então, lembra essa ave como quem diz: "Até o pelicano, de que Vós sois o criador, dá o sangue pelos seus filhos famintos. Meu Deus, olhai-me, tenho fome, mas estou numa situação pior. Fiquei reduzido a um estado esquelético e Vós, meu Deus, não me ajudareis? Ó piedoso Pelicano!"

A imagem não encerra apenas beleza literária; ela nos toca até o fundo da alma. Lembro-me de que no alto da porta principal da Igreja do Sagrado Coração de Jesus pode-se ver uma representação dessa figura, indicando aos fiéis a idéia de que eles estão chegando junto ao trono da misericórdia e o Homem-Deus, a quem vão adorar, é como o piedoso pelicano. Que rezem, portanto, com intensa confiança.

Quantas vezes somos como o pássaro solitário no teto!

Velei, e tornei-me como o pássaro solitário no telhado.

Esse versículo me chamou especialmente a atenção quando, a certa altura de minha vida, rompi com o mundo, deixei de freqüentar a sociedade e imergi no movimento católico.

Durante anos eu fora sócio do prestigioso Clube Paulistano, dera-me com as melhores rodas, convivera nos mais seletos ambientes. Agora, passava perto das casas de alto nível, ou junto à porta do Clube (de cuja lista de associados mandara retirar meu nome) e me sentia alheio àquilo tudo. A idéia do pássaro solitário no telhado, distante do que acontece na casa de família onde outrora poderia ter morado numa gaiola ou num poleiro, fazia lembrar minha situação: "Vivi em meios mundanos, mas hoje estou sozinho, rompi com eles".

Não se trata de uma recordação vã. Trago-a ao presente, para salientar que muitas vezes temos de ser como pássaros solitários no teto, em relação aos ambientes incompatíveis com nossa salvação.

Todo o dia me improperavam os meus inimigos, e os que me louvavam conjuravam-se contra mim.

Isso sucede de modo típico com aquele que se separa do mundo a fim de viver exclusivamente para Deus. Seus antigos amigos passam a persegui-lo, falam mal e caçoam dele. É o caminho pelo qual trilham necessariamente os que se convertem, como já o atestava o pecador penitente do Salmo: ele começou a se emendar e está sendo atacado por aqueles que antes se diziam seus companheiros. Estes agora tramam combinações para caluniá-lo e desacreditá-lo.

Tristeza cruciante

Porque comia a cinza como pão, e misturava a minha bebida com as minhas lágrimas.

Outra linda expressão, falando do homem que prepara para si uma refeição, mas chora enquanto come e bebe. Seu pão é misturado com as cinzas da penitência e o seu copo de água tem o sabor salgado das lágrimas que ele mesmo verteu...

São imagens de uma tristeza capaz de transpassar tudo, dominar o homem que pecou e ainda não se sente inteiramente perdoado por Deus. Ele sabe que ainda falta uma série de sacrifícios a fazer, de renúncias a executar. Então ele chora, seu pão é misturado com a cinza – é uma metáfora da contrição – e sua água tem o sabor das lágrimas.

Continua...

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