Dr. Plinio: Fidelidade à Santa Igreja
"Tornei-me como o pássaro solitário no telhado"
Continuação...
Só Deus permanece eternamente
... os teus anos se estendem de geração em geração.
Para falar da eternidade de Deus, o Salmista emprega esta linda frase. Quer dizer, as gerações passam, só Ele é eterno e absoluto. Então, diante de tanta magnitude, o pecador poderia retomar a expressão camoniana: "Tende pena deste verme da terra tão pequeno".
No princípio, Senhor, fundastes a Terra, e os Céus são a obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas Tu permanecerás...
A palavra "eles" se refere aos pecadores, que talvez pareçam muito importantes, mas morrerão. Somente Deus permanecerá para sempre.
Essa verdade pode ser constatada em certos monumentos a grandes homens (ou que foram imaginados como tais pelos pequenos). Por exemplo, na bela Abadia de Westminster, em Londres, de estilo gótico, fizeram algo a meu ver de muito mau gosto: a fim de rememorar supostos grandes homens da Igreja anglicana, aplicaram nas suas paredes internas uma série de esculturas que representam esses personagens praticando determinado gesto, considerado o culminante de sua vida.
Aquela série de figuras, dispostas de um lado e de outro, causam a impressão de agitação, de efêmero, de vazio. Bem acima dessas esculturas há lindas ogivas, fazendo-nos sentir tranqüilidade, e como que nos dizendo: "Os homens são esse amontoado de pedra; Tu, ó Deus, permanecerás eternamente!"
... todos eles envelhecerão como um vestido.
Que linda comparação: "envelhecerão como um vestido"!
Todos os trajes, por mais magníficos que sejam, envelhecem e se tornam trapos. Deus, porém, é o único perene e eterno.
E como roupa os mudarás, e serão mudados.
Quer dizer, Deus substitui os homens, instrumentos para sua ação, como se muda de roupa. Ele põe de lado um e escolhe outro para agir melhor. Quando alguém não corresponde à graça, ele muitas vezes o descarta – embora o conserve vivo – e elege outro. E este último surge com passos a ecoarem um bonito som, solene, nobre, marca a História, tudo se inclina diante dele. O novo escolhido prossegue sempre fiel na caminhada que Deus lhe indicou, até o dia em que sua alma sobe ao Céu. A existência humana, em sua trajetória, apresenta vários episódios como esse.
Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos não terão fim.
Sobre os católicos dos últimos tempos, pela sua fidelidade, poder-se-á dizer: "Vós sereis sempre os mesmos e vossos anos não terão fim, pois serão conduzidos ao Céu e ali não haverá mais mudança para vós, nem morte. Vivereis eternamente". É o final da História.
Servos fiéis a Deus e a Nossa Senhora
Os filhos dos teus servos habitarão, e a sua posteridade será estável para sempre.
Segundo algumas traduções, esses filhos "habitarão seguros em Jerusalém".
Mais uma vez, é interessante estabelecermos um paralelo entre a situação descrita pelo Salmista e a dos católicos em nossos dias. Assim, servos de Deus são os que se consagram ao serviço d'Ele, como o fazemos em nosso movimento. Somos servos do Altíssimo, e nos gloriamos de o sermos também de Maria.
Além de servos, o Rei David fala em filhos. E na linha das analogias, nós somos também filhos de Nossa Senhora. São Luís Grignion de Montfort chega a falar da raça da Virgem. Evidentemente não no sentido físico da palavra, mas no de estirpe intelectual, moral, sobrenatural, nos mais altos e nobres significados que o termo comporte. Esses "habitarão", quer dizer, vivendo nesta Terra, ainda que às vezes perseguidos e execrados, permanecerão fiéis a Deus.
Com a alma posta na esperança de perseverarmos nessa fidelidade de filhos e servos de Nosso Senhor e de sua Mãe Santíssima, concluímos nossas considerações sobre o belo Salmo 101.