Dr. Plinio: Varão Católico
Compaixão e serenidade até o fim
Continuação...
– Não é nada. O que você quer fazer meu filho?
– Meu bem, quero ganhar tempo, deitado e tranqüilo.
Então, ela trouxe uma cadeira do quarto, colocou-a próximo à minha cama, sentou-se e começou a rezar. Ali permaneceu durante horas, até anoitecer. Em certo momento, eu disse:
– Meu bem, estou com muita fome e a senhora vai querer que eu coma algo.
– Diga o que você quer que sua mãe traz.
Ela mesma foi preparar o que eu pedi, serviu-me, conversamos um pouco, e quando nos despedimos ela me disse, no mesmo tom de carinho e solicitude: "De outras vezes, você não esconda nada de sua mãe, porque ela percebe e não vai lhe impor coisa alguma".
Só então eu percebi como ela não considerava bagatela aquela minha indisposição. Entretanto, a rogos de Nossa Senhora, a Providência me favorecera com boa saúde e na manhã seguinte eu já estava recuperado. Assim que me levantei, fui ao quarto de mamãe para cumprimentá-la, tranqüilizá-la e agradecê-la pelos cuidados da véspera. E retomamos a vida comum de todos os dias.
Porém, ficara-me a certeza de que, se a doença se agravasse, o desvelo dela se desdobraria até o fim. E, provavelmente, se eu morresse, ela não sobreviveria por muito tempo.
Acolhida à sombra da árvore que plantara
É interessante constatar como essa compaixão de mamãe para comigo, embora se manifestasse sempre que as circunstâncias a despertavam, ia adquirindo feições novas ao longo de minha vida. Quando eu era menino, ela inteira se debruçava sobre mim para me amparar. Mais tarde, no período de constituição do meu caráter, a solicitude dela se fez sentir em relação à luta que eu era obrigado a travar, como adolescente, para a minha própria formação. Quando homem maduro, eu notava nela uma espécie de legítima ufania, à semelhança de quem construiu um barco e se compraz ao vê-lo navegar: "Deixe-o singrar, alegra-me ver como ele enfrenta as ondas; sinto satisfação por ter feito isso, em ter tido um filho e o haver formado para que depois enfrentasse a vida de peito aberto!". Essa era a alegria dela.
E quando se aproximavam seus últimos anos de vida, a missão protetora e formadora da compaixão dela, enquanto mãe, ia cessando. Ela sentia esse compreensível minguamento e, por sua vez, passou a como que "se encostar" na minha compaixão para com ela. Portanto, deu-se uma nobre e natural inversão da situação antiga, ela veio se acolher à sombra da árvore que ela mesma tinha plantado.
Presença sempre enternecedora
Seja como for, já com seus 91 anos, a presença dela continuava sempre enternecedora, cumulando-me de agrado. Durante toda a vida, a conversa de mamãe foi agradável, mas sua presença era ótima, pelo fato de sua pessoa irradiar algo muito mais valioso do que a palavra humana possa exprimir, e de comunicá-lo com doçura, suavidade, alegria, ao mesmo tempo com tanto recolhimento, tanta dignidade e seriedade, que eu jamais me saciava de estar perto dela.
Continua...