Dr. Plinio: Varão Católico
Compaixão e serenidade até o fim
Continuação...
Lembro-me de que, às vezes, estando eu trabalhando no meu escritório, ela entrava, sentava-se na cadeira de balanço que ali havia e permanecia quieta ao meu lado, desfiando seu rosário. Quiçá, movida pela generosidade materna, ela encontrasse algum entretenimento na minha presença, mas a recíproca era inteiramente verdadeira, e eu me comprazia de modo prodigioso em estar com Dona Lucilia: dizia-lhe algo afetuoso, fazia-lhe um carinho, e a deixava contente.
Assim transcorreu nosso convívio, até alguns meses antes de ela falecer.
Na véspera da morte, calma e serenidade
Em fins de 1967, comecei a notar os primeiros sintomas da doença que haveria de me prostrar durante semanas, culminando numa operação1. Quando retornei do hospital, mamãe ainda estava viva, mas havia envelhecido muito. Acredito que ela não tenha percebido que eu estive fora tanto tempo, ou ao menos não se manifestou a esse respeito.
A convalescença me obrigava a permanecer com a perna estendida durante todo o tempo, numa posição bastante incômoda e desagradável. Após esse período de penosa recuperação, quando eu apenas começava a poder andar com o auxílio de muletas, afirmaram-me que a saúde de mamãe se agravara de modo alarmante: ela caminhava para o fim.
Recordo-me que na véspera da morte dela, mamãe se achava muito pior do coração, e por isso passei o dia inteiro no quarto dela. A falta de ar a oprimia de tal maneira que a impedia de conversar, e ela sofria muito com o mal-estar e a agonia que a asfixia traz consigo. Entretanto, mantinha-se calma, tranqüila, serena.
Um grande Sinal da Cruz antes de partir
Eu formara a idéia de que seria melhor, nas minhas condições, que mamãe não morresse durante a noite, pois a dificuldade de me locomover, somada a outros incômodos, não me possibilitariam de dar-lhe toda a assistência que eu gostaria de oferecer a ela nesse supremo momento. Quisera, antes, que fosse de manhã, depois de eu ter dado as orientações necessárias ao desenvolvimento do nosso apostolado naquele dia, e assim, poder estar ao lado dela quando Deus a chamasse a Si. Contudo, não imaginei que esse passamento se desse tão logo.
No dia seguinte, 21 de abril, acordei e perguntei por mamãe. Disseram-me que o estado dela permanecera mais ou menos o mesmo. Trouxeram-me o lanche da manhã e o jornal. Ora, mal acabara de lê-lo, o médico que a assistia entra no meu quarto e me diz: "Dr. Plinio, venha depressa. Dona Lucilia está morrendo!"
Tão rápido quanto me era possível naquelas condições eu me dirigi ao quarto dela, e assim que entrei, o médico me disse: "Ela já morreu". Contou-me, então, que a respiração de mamãe tornara-se cada vez mais ofegante, mas ela não quis me chamar. Quando ele percebeu que eram seus últimos instantes, foi me avisar e, ao voltar, a viu fazer um grande Nome do Padre e, em seguida, estender as mãos ao longo do corpo. Entregara sua alma a Deus.
Continua...