Dr. Plinio: Varão Católico


Discernimentos maternos

Continuação...

Dessa forma comentava ela a respeito de um conhecido, alvo das invectivas de espíritos menos conciliadores:

– É verdade... Mas, note que, por exemplo, ele é sempre franco. Muitos, que não possuem o defeito dele, entretanto são falsos. Esta franqueza tem seu valor. Ao se lhe apontarem os defeitos, é preciso recordar tal qualidade.

Virtude da vigilância

Quando Deus quer implantar uma obra, nunca falta com os meios, tanto sobrenaturais como naturais, para a sua realização. Assim, por exemplo, ao suscitar uma nova ordem religiosa. A fim de que ela se desenvolva e floresça, Deus favorece seu fundador com todos os dons e carismas necessários que lhe possibilitem cumprir integralmente a vocação à qual foi chamado. O mesmo se dá com a condição materna, magnífico símbolo da Providência de Deus. Não raras vezes costumam ser as mães assistidas pelo Espírito Santo com um certo discernimento dos espíritos, não só com vistas a educar os filhos, mas também a guiá-los pelo caminho do bem ao longo da vida.

Esse dom – que em Dª Lucilia se manifestou repetidamente sob a forma de alertas a seu filho para os perigos desta ou daquela situação – foi de novo posto em realce por um pequeno episódio. Estando ela a conversar em sua casa com alguns parentes e conhecidos, fez-se referência à então recente nomeação de certo personagem para um cargo de importância. Teceram-se alguns comentários sobre o caráter dele e, como Dª Lucilia ainda não o conhecia, mostraram-lhe uma fotografia publicada naqueles dias pela imprensa. Tinha ele relação com as atividades desenvolvidas por Dr. Plinio, e por isso ela se interessou mais especialmente pelo assunto. Tomou o jornal nas mãos, observou em silêncio por alguns instantes aquela fisionomia, e comentou com tristeza:

– Ele não é boa pessoa, não...

Essas palavras, naqueles lábios repletos de benquerença, surpreenderam os presentes, mas, como das vezes anteriores, em breve os fatos viriam a lhe dar razão.

Não deixa de ser interessante também outro episódio desta natureza, ocorrido na mesma época.

Um sonho premonitório

Certo dia Dª Lucilia contou a Dr. Plinio um sonho que a deixara um tanto intrigada. Seria talvez mais uma expressão de seu incomum discernimento das pessoas e das situações atinentes a seu filho.

Nesse sonho, ela se via no "1º Andar". Em determinado momento, alguém tocou a campainha da porta, e como não havia quem atendesse, foi ela mesma abrir. Para sua surpresa, estava ali seu falecido pai, Dr. Antônio, que vinha visitá-la.

Exultante de alegria, ela o acompanhou pelas diversas dependências do apartamento, explicando-lhe a origem dos móveis, quem havia feito a decoração, e um sem-número de outros detalhes. Dr. Antônio, com a mesma afeição que sempre devotara à filha, comentava tudo, dando sua aprovação. Por fim, chegaram ao fundo do corredor, onde estava localizado o quarto dela. Abriram a porta e, atônitos, depararam com um dos amigos de Dr. Plinio, deitado de través na cama, numa atitude vulgar e com um sorriso malévolo estampado no rosto.

Ante essa desagradável cena, Dr. Antônio censurou paternalmente a filha, dizendo:

– Em sua casa está tudo muito bem. Mas que você admita aqui tipinhos destes, eu não posso aprovar.

Nesse instante ela acordou. Ora, a mencionada pessoa daria grandes dissabores a Dr. Plinio, muitos anos após a morte de Dª Lucilia, o que na época em que se deu o sonho narrado ninguém poderia sequer suspeitar.

Esse discernimento que Dª Lucilia tinha do mal – animado em boa medida por seu grande afeto materno, mas sobretudo por sua retidão de alma – dificilmente era desmentido pela realidade, e nunca a abandonou até o fim de sua vida.

(Transcrito, com adaptações, da obra "Dona Lucilia")

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