Dr. Plinio: Varão Católico
Dois horizontes e duas vidas
Ofertaram-me a caixa ideal para as recordações da mãe ideal. Esta, aliás, não foi idealizada por mim. Eu a encontrei como o ideal para o qual olhei desde que nasci. E para o qual continuo a olhar, pensando nas delícias da eternidade as quais, pela misericórdia de Maria Santíssima, ela talvez já desfrute.
Grande elevação de alma
E eu considero o xale lilás guardado nessa caixa, lembrando-me da fisionomia prateada e lilás da senhora que o portava, e sinto-me ainda mais emocionado. Não posso me esquecer das conversas de mamãe comigo, em horas sempre noturnas, ela recostada em sua cama e eu sentado junto a seus pés. Nessas ocasiões, era-me dado notar nos horizontes do seu olhar, nos imponderáveis da voz, no trato de um carinho, uma delicadeza e uma elevação requintados, que havia no espírito dela muito mais do que suas palavras exprimiam.
Percebia que ela possuía, por assim dizer, dois horizontes e duas vidas. Um, o horizonte da vida quotidiana de uma dona-de-casa, inteiramente imbricada no seu meio. A maior parte dos que conviveram com ela neste ambiente nunca suspeitaram que houvesse um outro panorama, uma outra vida. Nesta, ela meditava em subidas verdades, com as quais a Fé desdobrava os seus véus de ouro completamente; a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a Nossa Senhora, abriam-lhe toda uma série de firmamentos, concepções e patamares de alma.
Conversávamos mais pelo olhar...
Nós dois nos achávamos tão envolvidos naquele contexto espiritual, os fios de linha daquele tecido eram de tal maneira trançados que nunca trocamos palavra um com o outro sobre esse ponto.
Conversávamos pelo olhar. Ela me apoiava e a partir de um certo momento, eu passei a estimulá-la nessa disposição de alma mais elevada. As nossas conversas, quando eram a sós e à noite, poderiam ser comparadas ao vôo de dois pássaros que nem de longe chegariam até o sol, mas se deleitavam em ver que os raios do astro soberano batiam sobre suas asas.
Sem abandonarmos esse imbricamento, nos entendíamos, falávamos a linguagem do imponderável, do inefável. Em seguida, nos despedíamos afetuosamente, eu me retirava para dormir e ela permanecia na cama. Nunca voltei ao quarto de mamãe para ver o que ela fazia depois de eu sair. Creio que cada um imergia em suas próprias cogitações.
Continua...