Dr. Plinio: Varão Católico


Espírito de justiça e misericórdia

Meus filhos muito caros. Enquanto rememoráveis o que há seis anos transcorreu, eu media a diferença entre as vossas interpretações e as minhas...

Seriedade no exame de consciência

Pois em matéria de apuração de méritos e responsabilidades próprias, existe o princípio de que não se deve ser escrupuloso nem ter incertezas artificiais e ridículas sobre o que objetivamente se fez ou não. Tampouco devemos ter indecisões tontas acerca do conteúdo e da amplitude da regra pela qual se julga tal ou tal situação ou ato que se praticou.

Mas, afastado o terreno dos escrúpulos, quando cada um interpreta suas ações, entra o reino da severidade, magnífico, augusto, de cores sombrias, de um lilás profundo como o da mais escura das quaresmeiras, onde a pessoa se põe, não diante de suas próprias condições subjetivas, nem mesmo da opinião dos outros, mas tão-só face à infinita intransigência de Deus.

E não se pergunta a si mesmo se a imperfeição, a transgressão que pode ter tido a desventura ou a desgraça de cometer é algo maior ou menor na gama comum do pecado, da infidelidade ou, pelo menos, da negligência. Não se indaga sobre isso, porque não importa. Nosso Juiz supremo não é o próximo, mas Aquele que está no Céu, sentado à mão direita de Deus Pai, donde virá para julgar os vivos e os mortos. E se muito provavelmente até alguns dos santos elevados ao mais alto da bem-aventurança eterna, gozando da glória dos eleitos, tiveram de passar pelo Purgatório, não podemos nós nos eximir de nos examinarmos com seriedade.

Vale dizer que nas chamas do Purgatório a alma tem dois lenitivos inenarráveis: primeiro, a certeza de que suas penas acabarão, desfechando no mar de uma felicidade sem fim. Segundo, tendo falecido em estado de graça, ela fica animada de uma intransigência parecida com a do próprio Deus, e se quer ali dentro, purificando-se, porque merece. Os fiéis vivos, por meio de orações, poderão obter que seus padecimentos sejam abreviados. Porém, na medida em que os insondáveis desígnios de Deus disponham o contrário, a primeira a desejar tal purificação é ela mesma.

Assim, é sob esta luz que devemos fazer nosso exame de consciência.

"Terá sido um preço justo e bem pago!"

Excetuando a Beatíssima Virgem Maria, talvez São José e os mártires que pagaram suas penas com o seu sangue derramado por amor a Cristo, bem como um ou outro santo, quem pode ter certeza de não merecer padecimentos semelhantes aos causados pelo desastre que sofri, se a Escritura nos diz que o justo cai sete vezes? (1)

Portanto, se eu examinar de frente o fato ocorrido há seis anos, como vos fito e como contemplo o belo vitral da porta ao fundo desta sala, digo: "Meu Deus, eu adoro vossos mistérios!"

Compreendo que vós, que não estais em julgamento, nem sois juízes de vosso fundador, considereis isso com outros olhos, de modo filial, como estais fazendo. Não sei, porém, se compreendeis minha posição e se vos dais bem conta de que, inevitavelmente, as nossas escriturações são divergentes a respeito do caso.

Continua...

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