Dr. Plinio: Varão Católico
Longas orações ao Divino Mestre
Sem descurar das suas práticas de piedade diárias, mamãe sempre cuidou dos afazeres domésticos com todo o zelo característico de uma esmerada dona de casa. Até os seus 75 anos, mais ou menos, ela procurava estar ao par das diversas necessidades e providências que o quotidiano no lar exigiam. Assim, podia-se vê-la percorrendo os cômodos, indo e vindo, supervisionando o trabalho de limpeza feito pela faxineira, ou o da lavadeira, o da cozinheira, etc.
Mais tempo dedicado à oração
Com o passar dos anos, porém, percebi que ela diminuía o ritmo nos cuidados da casa – sem que isso significasse relaxamentos – e dedicava mais tempo às suas orações. Antes, ela reservava as horas noturnas para rezar, e por volta da meia-noite já estava deitada, com o terço na mão, entremeando as últimas ave-marias com o sono. Diversas vezes a encontrei nessa atitude, quando eu retornava a casa depois do meu dia de trabalho e apostolado.
E ela mudou esse hábito. Lembro-me que por essa época morávamos no 4º andar de um prédio da Rua Vieira de Carvalho, onde também funcionava, no 6º andar, a sede principal do nosso movimento. Em frente ao edifício havia o bom restaurante Fasano, e acabou se estabelecendo o costume de, após nossas reuniões diárias, tomarmos ali um lanche, um sorvete, etc. Ocupávamos sempre alguma mesa próxima à calçada, da qual me era dado ver a janela do apartamento de mamãe, e ela, por sua vez, podia nos observar lá do alto.
Invariavelmente Dª Lucilia se postava na janela, e acompanhava nossos movimentos no outro lado da rua. Como sói acontecer entre brasileiros, com freqüência as despedidas se prolongavam em palavrinhas e comentários na calçada, numa forma de aproveitar o máximo possível o convívio. De modo instintivo, vez ou outra eu corria o olhar pelo prédio em frente e via que mamãe ainda estava lá, com seus cabelos inteiramente brancos iluminados pelas luzes da rua, a silhueta emoldurada pelo caixilho da janela. Observando, analisando, rezando...
Afinal encerrávamos a prosa. Eu subia para me despedir dela, antes de ir dormir no 6º andar. Depois de nos separarmos, acredito que Dª Lucilia ainda rezava, talvez já deitada, um rosário ou mais.
"Conversas" com Nosso Senhor
Quando o tempo foi correndo, as orações se intensificaram madrugada adentro. De maneira que, já no apartamento da Rua Alagoas, voltando eu cada vez mais tarde dos compromissos apostólicos, achava-a de pé, com o porte ereto que ela sempre conservou, bem junto à imagem do Sagrado Coração de Jesus que havia no salão da casa.
Não a encontrava rezando propriamente o rosário, embora ela trouxesse o terço à mão. Tinha-se a impressão de que ela "conversava" com a imagem: os lábios dela próximos ao peito de Nosso Senhor, e os dedos pousados sobre o sagrado coração. Em determinado momento, deslocava-os para os pés da imagem, imprimindo maior ou menor fervor nesses movimentos, conforme intenções mais ou menos prementes que ela tivesse. Não era difícil de compreender que as orações de máximo empenho eram aquelas ditas com os dedos postos no Coração de Jesus. Outro detalhe curioso: ela não rezava de lábios cerrados. Articulava-os, sem pronunciar som algum, do mesmo modo que o faria quem falasse com Nosso Senhor.
Continua...