Dr. Plinio: Varão Católico
Longas orações ao Divino Mestre
Continuação...
Assim que eu chegava, cumprimentava-a, conversávamos um pouco e tentava levá-la a dormir. Às vezes conseguia, porque Dª Lucilia se deixava conduzir no agrado da prosa e quando dava acordo de si já estava no quarto. Noutras ocasiões, entretanto, ela me dizia:
– Filhão, espere um instante. Vá adiantando suas coisas, e eu irei daqui a alguns minutos.
Deixava-a no salão, preparava-me para deitar, e voltava:
– Mãezinha, agora chegou a hora de dormir.
E ainda acontecia de, vez ou outra, quando eu retornava para essa "segunda chamada", trocarmos um dedo de prosa junto à imagem do Coração de Jesus. Então meu pai aparecia, vestido de robe de chambre, abria os braços e dizia: "Senhora, são quatro horas da manhã!". Mamãe lhe dava uma resposta amável, mas sem se importar muito com o aviso...
Preces na Sexta-feira Santa
Qual era o teor dessas longas "conversas" com o Sagrado Coração de Jesus?
Nunca perguntei a ela, e Dª Lucilia nunca me deu a entender. Creio bem que eram orações pelos familiares dela, assim como a manifestação de outras cogitações, anelos, preocupações, tudo devidamente pensado e maturado. Pois nela todas as coisas eram muito refletidas e ponderadas.
Essa meticulosidade se notava, por exemplo, nas preces que ela recitava às três horas da tarde na Sexta-Feira Santa. Tornaram-se mesmo um costume célebre na família, e todos os parentes que podiam, reuniam-se junto com mamãe, em casa dela, para rezar nessa ocasião.
Ela herdou do pai um pequeno Crucifixo, provavelmente originário de uma estação da Via Sacra, porque trazia inscrito sobre ele o número XII romano. Quando meu avô morreu, Dª Lucilia levou esse crucifixo para sua casa, e já na primeira Sexta-Feira Santa após o falecimento do pai, os familiares ali se encontraram para honrarem a Paixão de Nosso Senhor, diante daquele Crucifixo.
Chamava a atenção o cuidado com que mamãe preparava tudo para esse momento. Sobre uma mesa, ao lado da simbólica imagem do Crucificado, ela dispunha um castiçal que lhe fora presenteado por ocasião do seu casamento: mandava comprar papel de seda com o qual preenchia o vácuo entre a vela e a base do candelabro, recortava-o de maneira a dar-lhe um contorno bonito em forma de pétala de flor, etc. Preparativos estes que ela fazia bem antes das três horas da tarde.
Quando faltavam alguns minutos, ela se dirigia ao lugar das orações, seguida por todos os parentes que a acompanhariam naquele dever de piedade. Às três horas em ponto Dª Lucilia puxava as orações, iniciando pela Ladainha do Sagrado Coração de Jesus, a Ladainha de Nossa Senhora, uma prece pelas almas dos familiares mortos, e na seqüência diversas outras orações, entremeadas por algumas que ela recitava em silêncio, sob o olhar respeitoso dos demais.
Se alguma pessoa, sobretudo mais velha, dava indícios de cansaço ou incômodo por estar muito tempo ajoelhada, mamãe pedia a um mais moço que apanhasse almofadas e oferecesse a quem desejasse. Ninguém, contudo, ousava se retirar antes do término daquela íntima cerimônia de Sexta-Feira Santa.
Uma vez encerradas as orações, os salões da casa já estavam abertos à espera dos visitantes para alguns minutos de convívio, rodas de conversa, etc. Não muito tempo depois todos se retiravam, e o ambiente da casa imergia no recolhimento próprio à data celebrada. A vela permanecia acesa até se extinguir completamente, e o Crucifixo continuava exposto ao longo de todo o dia.
No Sábado Santo, mamãe tomava o resto do papel de seda que não fora usado, embrulhava o Crucifixo e o depositava numa gaveta, onde ele ficaria guardado até o ano seguinte.
(Extraído de Revista Dr. Plínio n° 120)