Dr. Plinio: Varão Católico
Na atmosfera do Coração de Jesus
Continuação...
A luz de seus vitrais difunde cores matizadas, que o enchem de acolhedora penumbra. E nele há qualquer coisa de balsâmico, de um discreto e perfumado azeite, que impregna de gravidade e afabilidade todo o ambiente, ao mesmo tempo que "sussurra" ao fiel: Tu já sofreste, mas terás que sofrer ainda mais. Aqui entretanto acharás um lenitivo. A vida é assim mesmo! Mas entre as paredes deste edifício encontrarás ajuda para sofrer. A igreja, de fato, comunica também, e harmonicamente, esperanças de alívio, de ajuda, e de situações que justifiquem a cristã alegria.
Assim, nessa igreja, verdadeiro escrínio de bênçãos, dir-se-ia que a graça é como uma garoa, uma finíssima neblina que se difunde, orvalhando as almas...
Tendo Dª Lucilia ali chegado acompanhada de seu filho, percorreu em recolhida peregrinação os vários altares, embora locomovendo-se penosamente. Rezou e rezou por longo tempo. Percebia-se que de vez em quando pedia perdão, pois batia no peito com discrição. Deteve-se em especial ante a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora.
Depois passou para a outra nave, fazendo uma profunda vênia diante do sacrário do altar-mor, onde estava o Santíssimo Sacramento, pois suas condições não permitiam ajoelhar-se, e parou demoradamente aos pés da imagem do Sagrado Coração de Jesus, que representava o ponto central da vida interior de Dª Lucilia. Sua alma ansiava por encontrar no Divino Redentor o termo de seu próprio afeto, de tal forma que, se não O conhecesse, ela O procuraria. E tendo-O encontrado, logo O identificaria como sendo Aquele que procurava.
No íntimo de sua alma, Dª Lucilia assim concebia a fisionomia moral do Sagrado Coração de Jesus: enormemente sério e triste, perto do qual o pecador se sente pequenino, dada a imensidade d'Ele, não pela estatura física, mas por suas altíssimas e insondáveis cogitações, próprias a uma criatura humana unida hipostaticamente a Deus. De dentro dessa seriedade, um olhar doce envolve e penetra o homem que O adora. E, no fundo desse afeto, uma pergunta implícita, uma censura nobremente interrogativa, dirigida ao pecador: "Por tão pouco fizeste tanto mal? Por isto estou sofrendo! Eu te amo e te perdôo, mas quero que penses nisto: por tão pouco fizeste tanto mal... Será que levarás tua torpeza e tua maldade a tal ponto que, vendo-me nesta atitude de suave perdão, ainda te manténs duro?"
Terminado seu piedoso colóquio com Nosso Senhor, Dª Lucilia dirigiu-se ao grupo escultórico situado quase ao fim da nave lateral esquerda, representando o encontro do Menino Jesus no Templo entre os doutores da Lei. Havia quase cinqüenta anos que ela, diante dessa imagem do Divino Infante, costumava pedir com insistência graças abundantes, para que seu filho enfrentasse vitoriosamente as lutas da perseverança e da santificação, assim como as empreendidas em favor da causa católica. Bem sabia ela que "a vida do homem sobre a Terra é uma guerra" (Jó 7,1).
Ela vivia na atmosfera do Sagrado Coração
Após saudar com o olhar outras imagens, os vitrais que tingiam com sua luz colorida as colunas da lateral esquerda e o imponente órgão ao fundo, Dª Lucilia, com a alma cheia, se retirou, apoiada no braço de seu filhão. Foi uma visita de despedida e de preparação para a eternidade. Quando saíram, o sol estava emitindo seus últimos raios dourados. Horas inteiras haviam-se passado...
No fundo da bondade luciliana encontramos essa identidade de espírito com o Sagrado Coração de Jesus, que a fazia manifestar aos outros a imensidade do amor de Nosso Senhor, como que dizendo: "Vê bem que não faltam razões para confiar n'Ele. Pede porque serás atendido; as portas da misericórdia estão abertas para ti".
Dona Lucilia vivia intensamente dentro dessa atmosfera do Sagrado Coração de Jesus, transpassado de dor pelos pecados dos homens, e cheio do desejo de perdoá-los. Como o bom discípulo em algo se parece com o Mestre, percebia-se inúmeras vezes que ela interiormente lamentava, deplorava, sofria e perdoava, em uníssono com o Sagrado Coração de Jesus.
(Transcrito, com adaptações da obra "Dona Lucilia")