Dr. Plinio: Varão Católico


Na extrema ancianidade, uma grande provação

Continuação...

"Quando me apareceu esta espécie de abscesso, imediatamente me lembrei do pensamento que tivera assistindo ao filme. Parecia-me que algo de absurdo se realizava. Vi-me obrigado a passar alguns dias em casa, envidando, porém, todos os esforços para que mamãe nada percebesse. Minha penosa deambulação era feita com o auxílio de alguns apoios. Lembro-me que uma vez mamãe estava sentada à mesa, à minha espera, e eu, ao passar pelo hall, escorreguei e caí. Minha febre já estava altíssima. Uma antiga empregada, não compreendendo que eu levasse meu desvelo por mamãe ao ponto de esconder minha doença, a fim de lhe poupar preocupações, disse-me num tom de acidez:

"– Qual é o problema? Por que o senhor não lhe conta de uma vez o que o senhor tem?

"Manifestando desagrado respondi:

"– Você não percebe que eu não quero aborrecê-la?

"– Mas até esse ponto?

"– Até esse ponto! Quem gradua isto sou eu – retruquei.

"Tendo-me levantado, dirigi-me à sala onde estava mamãe, enquanto pensava: O que eu pressentia se está realizando. Estou com uma grave enfermidade, serei obrigado a chamar médicos, que me apresentarão um terrível diagnóstico..."

De fato, no dia seguinte, segunda-feira, bem cedo, Dr. Plinio recorreu aos médicos e viu-se introduzido num túnel, à primeira vista, sem saída. Os resultados dos exames de laboratório revelaram uma forte crise de diabetes. Foi-lhe determinado repouso absoluto, regime alimentar restrito, remédios e controle glicêmico para rapidamente serem debelados os distúrbios orgânicos produzidos pela enfermidade. Entretanto, restava um problema não menos trágico: uma gangrena em seu pé direito.

Em face de tal quadro, Dr. Plinio pensou: "Minha previsão se confirmou. Um vendaval se abaterá sobre mim, e mamãe ainda vai morrer por estes dias..."

Se o coração de um filho pode às vezes ser acometido por intuições, o que se dirá do discernimento materno? É certo que Dª Lucilia percebeu estar-se passando algo de estranho com Dr. Plinio.

Feliz e pobre Dª Lucilia! Lucraria a companhia diária de seu filho até o dia 21 de abril seguinte, data em que ela compareceria diante de Deus para ser julgada.

"Devo recomendar que, se eu morrer, não o digam a mamãe?"

Às apreensões com a saúde acrescentaram-se, para Dr. Plinio, perplexidades de alma: "O que dizer a mamãe se, por exemplo, eu tivesse que amputar uma parte de meu pé direito? Devo recomendar que, se eu morrer, não o digam a mamãe? Seria lícito nada dizerem a ela, a fim de lhe poupar um grande choque emocional?"

Mas, nesse caso, as pessoas que com ela tratavam ver-se-iam obrigadas a entrar pelas vias da mentira, para lhe ocultar a tragédia. Sofrendo Dª Lucilia de uma leve diminuição de lucidez, própria à ancianidade, teria direito de conhecer a verdade inteira? Por outro lado, se a Divina Providência quisesse prová-la, seria legítimo poupar-lhe essa borrasca?

Continua...

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