Dr. Plinio: Varão Católico
Na extrema ancianidade, uma grande provação
Continuação...
Entre as inúmeras cogitações que então povoavam a alma de Dr. Plinio, constituíam estas últimas uma tremenda provação.
Por sua vez, aquela que era o objeto dessas preocupações estaria, provavelmente, passando por outras aflições. Em vista do inusitado movimento em sua residência, o maternal e afetuoso coração dela notava a situação anormal em que se achava Dr. Plinio. Por que tantas pessoas desconhecidas a freqüentar o apartamento? Qual a razão das numerosas chamadas telefônicas? Eram perguntas que se iam acumulando nos horizontes já cansados e aflitos de Dª Lucilia. Tanto mais que, encontrando-se na contingência de fazer uso de uma cadeira de rodas, via-se coarctada em seu desejo de atender a todas as conveniências de seu querido filho.
De outro lado, não se podia exigir das empregadas de casa a perfeição da virtude da caridade. Elas ali estavam simplesmente para servir, pois para tal haviam sido contratadas. Assim, quando Dª Lucilia lhes pedia explicações a respeito do que se estava passando, cada uma dava a resposta que espontaneamente lhe vinha à mente, sem maiores cuidados.
Tais circunstâncias, acrescidas às intuições do coração de mãe, aumentavam o sofrimento de Dª Lucilia.
Deus qui ponit pondus...
Inicialmente, os médicos fizeram curativos no pé direito de Dr. Plinio no próprio "1º andar". Depois julgaram que o melhor seria chamar um especialista, o qual, logo após examinar o enfermo, concluiu ser necessária uma urgente cirurgia para debelar a grave infecção. Naquela mesma noite, com os devidos cuidados, Dr. Plinio foi transladado ao Hospital Sírio-Libanês, onde o médico executou eximiamente a operação. O paciente ainda permaneceria alguns dias no hospital.
Às vezes, as graças mais insignes nos são dadas em meio aos males que, com a permissão da Providência, sobre nós se abatem: Deus qui ponit pondus, supponit manum – "Deus ampara com a mão a quem permite que seja provado". Assim, em 16 de dezembro, Dr. Plinio recebeu de um amigo, vindo de Roma, um quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano. Ele próprio descreveria depois, com palavras impregnadas de filial e amorosa gratidão à Santíssima Virgem, esse episódio de transcendente significado para sua vida espiritual (1).
Angustiante tranqüilidade
Enquanto os dias de hospital iam se escoando, no "1º andar" não faltaram motivos de aflição a Dª Lucilia. Fora-lhe ocultada a ida de Dr. Plinio para aquele centro médico. Ela percebia, pois, intrigada, que à intensa movimentação dos dias anteriores sucedia-se uma repentina e perplexitante tranqüilidade. Que teria acontecido a seu filho? Há muito não a visitava. Teria viajado? Ou uma grave doença se abatera sobre ele? Será que a morte o havia colhido?
Em razão de tais apreensões, suportadas no silêncio, cada vez mais a dor se ia tornando sua companheira, nos últimos lampejos de sua sofrida existência.
Felizmente, Dr. Plinio não demorou a voltar. A expressiva estampa da Mãe do Bom Conselho, que lhe fora oferecida no hospital, terá também despertado a atenção de Dª Lucilia. Não só pelo fato de seu filho a ter colocado em lugar de destaque no quarto dele, como sobretudo pela comunicatividade materna da fisionomia de Nossa Senhora e pela figura infinitamente régia e filial do Divino Infante.
O desvelo materno fê-la sonhar a realidade
Com vistas a minorar o sofrimento de sua mãe, Dr. Plinio continuou a ocultar-lhe o que se passara. Entretanto, era mister inventar uma história, a fim de responder às aflitas interrogações maternas, e explicar por que tinha ele o pé direito enfaixado, ficando tanto tempo recostado. Ocorreu a uma das empregadas, numa hora de aperto, dizer a Dª Lucilia que Dr. Plinio, passeando pelos caminhos pedregosos da fazenda de uns amigos, torcera o pé, e devia por prescrição médica permanecer em prolongado repouso.
Coração de mãe não se engana! Certa noite Dª Lucilia, em meio a um pesadelo a propósito da enfermidade de seu filho, viu o pé direito dele sofrer séria amputação. A partir desse momento se convenceu de que esta era a realidade. Portanto, algo muito mais grave do que o relato feito pela empregada. Quem encontraria argumentos para tranqüilizá-la? Tarefa nada fácil... Inúmeras foram as ocasiões, até a hora da morte, nas quais Dª Lucilia se referiu às cenas daquele sonho como retratando algo que efetivamente acontecera. Embora tão idosa, o desvelo materno fê-la descobrir o que não lhe fora dito, apesar de os circunstantes continuarem a encobrir a realidade com véus otimistas...
(Transcrito, com adaptações, da obra "Dona Lucilia")
1) Cf. "Dr. Plinio" nº 21, pp. 16 ss; e nº 83, p. 4.