Dr. Plinio: Varão Católico


Podia ser a mãe de mil filhos

Continuação...

Quando estava sozinha, sem perceber que a observavam, causava a impressão de estar inundada de uma doçura resultante de incontáveis atos de resignação, ligada a um grande senso sobrenatural e a uma superior dignidade, sem nada de comum com a paciência deformada por concepções românticas e sentimentais.

Filiais cogitações... sem resposta

Um dia em que Dr. Plinio jantava só com sua mãe, embevecendo-se com as palavras, os gestos e a atitude dela, uma singular consideração lhe passou pelo espírito. Emocionado, ele recordará:

O melhor não estava na conversa... Estava na presença dela! E, portanto, eu mantinha a prosa quase por polidez, para poder me regalar com sua presença. Passou-me de súbito pela mente esta reflexão: como as circunstâncias do mundo de hoje tendem a tornar cada vez mais raro que haja mãe e filho que se queiram tão bem como nós dois! E como é difícil haver mãe como ela!

Lembrei-me, então, do convívio que tivéramos tantas vezes naquela sala. Dada a raridade desse relacionamento, desse ambiente, naturalmente me veio ao espírito o seguinte: qual será o desígnio da Providência a respeito de nós dois? Aqui está uma sala onde estamos, a sós, uma velha mãe e um filho, homem já maduro. Passa-se rapidamente da maturidade para a velhice, e desta para a morte. O tempo traga tudo. Não acontecerá que antes do período normal a Providência determine de nos levar embora, tirar-nos desta vida, a ela e a mim? E assim os fatos se passarem como se um tufão entrasse nesta sala de jantar e nos arrastasse?

E então se extinguiria este último torrãozinho onde, como em poucos lugares do mundo de hoje, havia um filho que queria sua mãe tanto quanto podia, e a mãe o merecia com uma abundância e uma amplitude difíceis de calcular... E uma mãe que queria bem a seu filho com todo o coração.

Esta salinha de jantar é um dos poucos torrõezinhos no qual Nossa Senhora ainda conserva um resto de seu reinado sobre os corações. Neste mundo em que tudo quanto é d'Ela vai sendo destruído, será que a Providência permitirá dissolver-se ao vento também tais torrõezinhos?...

Enfim, cogitações mais ou menos melancólicas como estas me passavam pela mente, e para elas eu não tinha resposta...

Dir-se-ia feita para ter milhares de filhos

O feitio do amor materno de Dª Lucilia dava a impressão de que sua alma esperava ter mil filhos, e isto constituía a grande incógnita de sua vida.

A Providência lhe infundira no coração uma enorme capacidade de afeto, bondade e proteção, que parecia fadada a morrer sem ter podido exercer-se inteiramente. O plano de Deus em relação a ela lhe parecia inexplicável, e foi uma das tristezas de sua vida: aquele amor maternal, que pudera dedicar, é verdade, a dois filhos, mas que em grande parte ficara guardado no escrínio de sua alma, sem condições de ser aplicado.

Várias vezes analisei mamãe – comentaria mais tarde Dr. Plinio – e, não podendo imaginar o que depois sucedeu, olhava para ela e pensava: "Há algo de axiológico na vida dela que parece não estar bem acertado. Ela possui uma enorme ternura; foi afetuosíssima como filha, afetuosíssima como irmã, afetuosíssima como esposa, afetuosíssima como mãe, como avó, e mesmo como bisavó. Ela levou seu afeto até onde lhe foi possível.

"Mas, eu tenho a impressão de que alguma coisa nela dá a nota tônica de todos esses afetos: é o fato de ela ser, sobretudo, mãe! Ela possui um amor transbordante não só para com os dois filhos que teve, como também para com filhos que ela não teve. Dir-se-ia feita para ter milhares de filhos, e seu coração palpita do desejo de conhecê-los. Entretanto, esses filhos não vieram, nem poderiam vir nesse número exorbitante. O que quis a Providência com isso?"

Via-se que mamãe esperava uma certa coisa da vida. Não na ordem do prazer, nem do realce, nem de algo semelhante. Ela esperava uma certa reciprocidade de mentalidade, uma certa afinidade de pensamento, de temperamento, de modo de ser. Ela era ávida de abarcar um largo afeto, uma imensa consonância com um número enorme de pessoas. E chegou ao último extremo de sua longa ancianidade nessa serena expectativa, calma, um tanto tristonha, mas de uma tristeza luminosa, nobre, sem agitações ou angústias, e com um fundo de certeza de que isso um dia viria...

(Transcrito, com adaptações da obra "Dona Lucilia")

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