Dr. Plinio: Varão Católico
Uma surpresa e um encanto de alma
Continuação...
Algum tempo depois, voltou a soar a sineta e a empregada, ao assomar à porta, ouviu de Dª Lucilia:
– Você quer dizer a esse senhor que faça o favor de entrar?
Logo que ele se apresentou, Dª Lucilia o cumprimentou de maneira acolhedora, e assim introduziu a conversa:
– O senhor certamente está esperando o Plinio, não é? Eu queria dizer ao senhor o seguinte: ele tem uns amigos que o estimam muito e, às vezes, convidam-no para passarem juntos alguns dias numa fazenda, perto de Amparo. E o senhor sabe? Estando ali, o Plinio andava por um terreno irregular e muito pedregoso, quando torceu o pé. Ele foi socorrido pelos amigos, mas os médicos que depois o examinaram recomendaram-lhe muito descanso...
Após essa explicação, Dª Lucilia, com sua arte de colocar o visitante inteiramente à vontade, prosseguiu:
– Por esse motivo, o Plinio vai demorar ainda um pouco para atendê-lo, de maneira que o senhor vai ter de esperar mais do que imaginava... Mas o senhor, enquanto o aguarda, vai me dar o prazer de sua companhia. O senhor aceitaria tomar chá?
– Por favor, a senhora não se deve preocupar!
– Talvez o senhor não goste de chá e prefira café com leite, ou alguma outra coisa...
Não foi possível ao jovem recusar. Dona Lucilia tocou então a sineta e ordenou à empregada que trouxesse chá e biscoitos.
Esta cena – evocativa da antiga douceur de vivre – doravante irá repetir-se todos os dias. Dona Lucilia empregará, de cada vez, aquele seu invariável e delicado modo de acolher.
Parecia que os biscoitos provinham do Paraíso...
Antes mesmo de a empregada pôr a mesa, Dª Lucilia convidava o interlocutor a se acomodar:
– Por favor, sente-se onde for mais de seu agrado.
Em geral, depois de explicar por que seu filho demoraria em atender, ela prosseguia a conversa relatando a origem dos excelentes biscoitos que desejava oferecer ao visitante.
– O senhor sabe? Todas as quintas-feiras meu sobrinho vai a Campinas. E, certa vez, retornando de lá, teve a gentileza de me trazer uns biscoitos. Ao agradecer, eu disse que os tinha achado muito saborosos e que ficara contente com o gesto dele. Depois disso, ele sempre me traz uma quantidade suficiente para a semana inteira. O senhor vai gostar muito deles porque são realmente deliciosos.
A maneira como contava este pequeno episódio da vida doméstica envolvia o interlocutor numa atmosfera de maravilhoso, por onde se tinha a impressão de que a farinha do biscoito viera do Paraíso e fora moída pelos Anjos... Era de notar o desapego com que ela oferecia os biscoitos: sem egoísmos nem receio de que pudessem vir a faltar-lhe.
Conduzia a conversa com uma singela e encantadora gentileza. Do cimo de seus 91 anos, não procurava falar de si mesma, de suas dificuldades passadas ou presentes. Havia um certo momento em que ela fazia uma sugestiva pausa, muito nobre, muito distinta, dando oportunidade à pessoa que diante dela se encontrava de levantar algum tema, pois estava sempre disposta a conversar a respeito do que o outro quisesse. Era uma excelente ocasião para se apreciar o modo harmonioso com que ela abordava os assuntos. Fazia-o de maneira a atender, acima de tudo, aos legítimos anseios do visitante.
Naquelas ditosas e inesquecíveis conversas com Dª Lucilia, era freqüente o visitante perguntar-lhe algo a respeito de seus filhos, pelo extremo gosto de ouvi-la discorrer sobre acontecimentos da vida familiar. Tema, aliás, não lhe fosse proposto, ela jamais tomaria a iniciativa de sequer insinuar.
Saudosos meses aqueles, durante os quais foi possível conhecer um bom número de fatos da longa existência de Dª Lucilia, narrados diretamente por ela. O que mais atraía o interlocutor eram os detalhes da infância dos filhos dela, pois permitiam aquilatar o grande esmero que ela pusera em os educar e formar.
(Transcrito, com adaptações, da obra "Dona Lucilia")
1) Literalmente "saber fazer". Expressão com que o espírito francês designa a habilidade, freqüentemente unida à astúcia, para obter bom resultado naquilo que se faz.